22 de junho de 2010

Enigma dos Dias

O que há escondido no fundo dos dias?
O repousar interminável da poeira sobre as coisas.
As gavetas destrancadas que encerram agonias
Já esquecidas, mas que ameaçam acordar
Vulcânicas, dilacerando vidas.
As garrafas vazias.
Os copos tão cheios de mágoas
Transbordando em tempestades desesperadas.
O cupim no teto
O desabamento previsto.
O olhar indeciso no limiar da escada.
O café que esfriou na xícara

O leite que se derramou na estrada.
O estilhaçar das janelas de vidro,
Agora somente cacos imprecisos,
Do que outrora filtrou a luz solar.
Os quadros que tombaram da parede.

Tudo é guerra!
O futuro é já o passado banguela
Caminhando de bengala
Sob um fundo de sonhos nublados.
E o que desejou ter, o que desejou ser
Caiu aos pedaços em meio à caminhada.
Há muita maldade em muitos sorrisos
Há muita maldade em muitas palavras.
Alguns caminhantes passam despercebidos
Tentando alcançar o fim da jornada.
A eternidade assombra, apavora
Quem quer andar por aí
Imaterial, carregando chagas?
Desejo de encerrar mais cedo a jornada
Fechar os olhos é contemplar o precipício
Em cada olhar há uma porta fechada.

7 comentários:

Kenia Cris disse...

Um poema de imagens belíssimas e metáforas divertidas - os melhores enigmas deveriam todos ser construídos assim. =))))

Delícia de poema, Kiki, ainda não consegui escolher a minha linha favorita. Na dúvida, fico com todas.

Beijo sempre carinhoso. =*

Grigório Rocha disse...

Mais uma vez Delirium nos brinda com uma poesia forte e reflexiva. Nos traz imagens que nos deixam inquietos, pensativos. Como se fosse a esfinge, nos propõe um enigma e nos deixa intrigados, como diria Raul, "com a boca escancarada, cheia de dentes...".
Essa poesia me tocou profundamente, pois vai realmente ao âmago da nossa relação com as pequenas coisas que constituem nosso caminho e a nossa relação com o passado, o presente e o futuro, descortinando as janelas de onde podemos mirar as paisagens deixadas ao longo da estrada.
Mais uma vez, parabéns a Delirium, a grande musa da poesia contemporânea.

Juan Moravagine Carneiro disse...

Como é suave o desejo...
Como é intenso este poema!

abraço

Alisson da Hora disse...

E as portas, o passado banguela, o futuro obscuro...

jorge manuel brasil mesquita disse...

Não desejo ser nada
porque a eternidade assombra
e esta vida deslavada
é um canteiro de flores murchas
sem água, sem estrume
que lhe aconchegue o leite
da Primavera
na combustão do Inverno.
Tudo desejo ser
ao acordar a madrugada
de uma canção liberta
que eu canto
para que a boca aberta
respire o ar puro
da vida que se consome
à fome da vida.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Lisboa, 14/07/2010
etpluribusepitaphius.blogspot.com

Infeto disse...

Indecifraveis meu caro, muito boa escrita esa sua, quanto aos olhares, portas e tudo mais vamos providenciar a marreta. abraços.

http://poesiafotocritica.blogspot.com

Roberto Ney disse...

eu também compartilho de sua "angustiante paixão pela poesia"... sou do tipo que se arrepia por inteiro...
estava lendo seu comentário em um texto meu... como sempre, uma delícia passar por aqui.
abraço!

 
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