30 de março de 2010

Eterno e Passado

O eterno agora estende
Braços cansados
Ombros pesados
Olhos vidrados


O eterno pede repouso
Quiçá pede a morte
De preto, de branco, de pele.
O eterno agora é silencioso.


O eterno agora
Sorri desbotado para o passado
Que é uma criança mimada
Pegando picula na estrada
Com cabelos esvoaçantes de cinza e pó.


O eterno quer passar com o passado
Mas passado não passa
Ele fica.
É casca de ferida
Não sangra e nem cicatriza.
(Calliope, 29/03/2010)

24 de março de 2010

Sob a Chuva

I

O meu lirismo crônico
Não existe sem o barbarismo
Dos ensurdecedores trovões
Ou os clarões
De todos esses raios divinos
(Ou seriam naturais?)
Naturalmente divinais.
A chuva vai caindo, sem limites,
Sem escoamento, vai alagando tudo.
Inunda coração e mente
Dessa existência angelista
Ignoro tantas vezes
Tantas vezes sou ignorada.
Tomo os desvios que me convém
Durante a caminhada.

II

E se temo
É porque errei irremediavelmente
Ao adentrar este labirinto
Há tanta água no chão em que piso
Tanta lágrima derramada
Tanto corpo caído
Tanta alma despedaçada
E eu espero enxergar a estrada
E encontrar a trilha do caminho
Que compreendi ao sair de casa.
Ninguém nota esse desenhar de palavras
Essas coisas soltas que saltam da alma
Fazem piruetas no ar e inundam meu espaço de calma.
Quero problematizar a poética
Poetizar o meu problema
Reduzir os meus algarismos a alfabética extrema.

III

E quem quiser que entenda como loucura
O que se me mostra absoluta razão.
Não é a toa que toco em tua ferida
Quando seguro firme em tua mão.
Eu faço poesia com a pena que eu quiser
E se eu quiser cantar o vazio
O farei sem pestanejar.
Mas não pensei que escreveria um poema
À caminho de casa num ônibus abafado
Por tantas inspirações e aspirações
Que não vão se concretizar
Tudo bem, o que vale é a intenção de tentar.
(Calliope, 23/03/2010) 

22 de março de 2010

O Doce e o Azedo

Meu amor vai nú pela rua
Louco, desvairado
Sem vaidade que o cubra
Vai andando pela rua
Incompleto, cortado.
Esbanjando  metades.


Metades do que se foi
Que se passou
Transcrito foi em versos
Ou será que louco
Exibe o que não foi
Em ode singela, vaidade e restos?


Há que esconder essa nudez
Com as pétalas murchas
De rosas espectrais
Que, sombrias, o insultam
Em silêncios abissais?


Não. Ele resiste.


Que matéria plena,
Que tecido inconsútil
Esconderia as carnes etéreas
Do meu amor desnudo?


Seguindo pela rua nú
Ninguém o nota
Meu amor não se esconde
Tampouco se mostra.
Quem o viu não percebeu
Quem o sentiu não entendeu
Quando empalideceu ou quando ruborizou.
(Calliope, 20/03/2010)

10 de março de 2010

Rosa

Rosa composta de pétalas murchas
Das rosas que beijou 
Ou que beijar desejou.
Que fiz de mim?
Adorno grotesco de jardim.
(Calliope)
 
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