4 de outubro de 2010

Águas Turvas

Olhando o mar
Imagino-me deitando
Águas turvas
Em coração singelo
Uma dose,
Sem gelo
Do seu veneno: mistério.


Afogando-me
Proponho um novo batismo
Deitando ao largo
Platonices agudas
Complexidades miúdas
Com que amplio os meus dias.


Compaixão!
Não sou de plástico
Nem tenho sete vidas
Remoendo minhas feridas
Adentro labirintos...


Vem se perder em mim
Vórtice de loucuras plenas
Delira que te entrego
À própria sorte
Pétala de sonho e de morte
“Bem-me-quer, mal-me-quer”
(Des)espero.

Pego-me em águas turvas
E exijo um drinque,
Bêbada, violenta
Rogo:
Mate-me, com menta.

(Calliope)

23 de setembro de 2010

Setembro

É uma sombra que segue
E seguindo rompe a luz
Não há sol nas manhãs claras
Não há clareza no mar
Apenas ondas que hão de rolar...
E rolam sem lamentar
Lamentosa sina
De vir sempre e voltar
Voltando ao seio do mar.

E quando não se tem a quem amar?
Como a onda ama o mar que a produz
Sina esta que não se traduz
Sina minha, macular de passado
Minha história adentro.
E adentrando, estranho espelho,
Vendo-me por dentro
Vencida...

Dignidade! Dá-me um lenço
Dá-me o sol por socorro
Que de nimbos
Enfeitado todo
Meu céu - vidros quebrados - está
Vejo por dentro o que tenho
E o que tenho é nada que partilho
E partilhando, dou a poucos,
Uma desesperança tola.

Riso de criança na janela
Sorriso banguela da dor.
Já não distingo o riso do choro
Chorando e rindo, estou.
Deixai-me pela estrada
A caminhada é solitária
E o vazio está cheio de lógica
Suprema inquietação.

Vou andando, seguindo
Não sei se rolo sem tino,
Como a onda a rolar no mar
Ou se seguro uma mão
Fortuita
Que, corajosamente,
Ajuda-me a andar.

22 de junho de 2010

Enigma dos Dias

O que há escondido no fundo dos dias?
O repousar interminável da poeira sobre as coisas.
As gavetas destrancadas que encerram agonias
Já esquecidas, mas que ameaçam acordar
Vulcânicas, dilacerando vidas.
As garrafas vazias.
Os copos tão cheios de mágoas
Transbordando em tempestades desesperadas.
O cupim no teto
O desabamento previsto.
O olhar indeciso no limiar da escada.
O café que esfriou na xícara

O leite que se derramou na estrada.
O estilhaçar das janelas de vidro,
Agora somente cacos imprecisos,
Do que outrora filtrou a luz solar.
Os quadros que tombaram da parede.

Tudo é guerra!
O futuro é já o passado banguela
Caminhando de bengala
Sob um fundo de sonhos nublados.
E o que desejou ter, o que desejou ser
Caiu aos pedaços em meio à caminhada.
Há muita maldade em muitos sorrisos
Há muita maldade em muitas palavras.
Alguns caminhantes passam despercebidos
Tentando alcançar o fim da jornada.
A eternidade assombra, apavora
Quem quer andar por aí
Imaterial, carregando chagas?
Desejo de encerrar mais cedo a jornada
Fechar os olhos é contemplar o precipício
Em cada olhar há uma porta fechada.

14 de maio de 2010

Soneto

A um poeta erótico

Pétalas delicadas de carne em rosa
Desabrocham em lúbrico carmim
Para embelezar o escolhido jardim
Com a exuberância de sua forma generosa

Jardim onde rosas de outrora amam jazer
A rosa que brilha em estelar vermelhidão
Conduz – veludoso toque – à imensidão,
O que nenhuma outra rosa sonhou fazer.

Rosa devoradora, carnívora desatinada
Ladra glutona de prolífico mel
Desvairada explora-o até atingir o céu

Dessa rígida, túmida e labiríntica estrada
De suavidade morna e lenta
Cujo limiar é uma vara opulenta.

(Calliope, 14/05/2010)

23 de abril de 2010

Fome

A sua fome roeu o meu olhar
Roeu o meu pedaço de pão
Roeu o meu momento de riso
Roeu o meu momento de tédio
E o meu estômago doído
A sua fome roeu o meu egoísmo
Roeu o meu inconformismo
Roeu o meu anseio
E vou roendo as minhas unhas
E as pontas dos meus dedos
Esperando que essa fome não roa a vida
Que ainda espera por solução.
(Calliope)


Poema livremente inspirado em Dieta do Poeta Luiz da Silva
http://fosforo-eletrico.blogspot.com/2010/04/meio-dia-hora-do-almoco-e-eu-aqui-em.html

Quase Nuvens

Emergem do profundo alaranjado céu
As nuvens, em finais de aguadas tardes
Avolumam-se em véu
De branco de cinza de efemeridades
Somos como nuvens
Somos quase nuvens
Em diafaneidades
Nos dependuramos no azul-cinzento do horizonte
Às vezes, cirrus, dispersas e fugazes
Noutras vezes, nimbus, carregadas de vontades
Pelo céu estamos
Vagando de passagem
Tudo passa e se transfigura
E outras nuvens vem e vão
Sobre o horizonte angustiado
A noite se derrama impetuosa
Esconde as nuvens mais amistosas
Para apoderar-se, egoísta, da imensidão
No céu noturno só há espaço
Para nimbus chorosas de introspecção.
(Calliope)

16 de abril de 2010

Esboço de Preconceito

Pão ou bolo?
Cuspe na garganta
Engasgo
Engulo esse catarro
Cotidiano.
Escarro sangue na manchete
A televisão é quase um penico
A poesia, um infinito,
Corroendo alma e coração.
Poupe-me de sua malícia
Vista sua pena de pavão
E vá desfilar na passarela de chão.
Não sou de adereço 
Vou de tênis
E se te causa repulsa
Meus modos, minha poética
Abra a boca e cuspa
À moda da fonética.
(15/04/2010, Calliope)

30 de março de 2010

Eterno e Passado

O eterno agora estende
Braços cansados
Ombros pesados
Olhos vidrados


O eterno pede repouso
Quiçá pede a morte
De preto, de branco, de pele.
O eterno agora é silencioso.


O eterno agora
Sorri desbotado para o passado
Que é uma criança mimada
Pegando picula na estrada
Com cabelos esvoaçantes de cinza e pó.


O eterno quer passar com o passado
Mas passado não passa
Ele fica.
É casca de ferida
Não sangra e nem cicatriza.
(Calliope, 29/03/2010)

24 de março de 2010

Sob a Chuva

I

O meu lirismo crônico
Não existe sem o barbarismo
Dos ensurdecedores trovões
Ou os clarões
De todos esses raios divinos
(Ou seriam naturais?)
Naturalmente divinais.
A chuva vai caindo, sem limites,
Sem escoamento, vai alagando tudo.
Inunda coração e mente
Dessa existência angelista
Ignoro tantas vezes
Tantas vezes sou ignorada.
Tomo os desvios que me convém
Durante a caminhada.

II

E se temo
É porque errei irremediavelmente
Ao adentrar este labirinto
Há tanta água no chão em que piso
Tanta lágrima derramada
Tanto corpo caído
Tanta alma despedaçada
E eu espero enxergar a estrada
E encontrar a trilha do caminho
Que compreendi ao sair de casa.
Ninguém nota esse desenhar de palavras
Essas coisas soltas que saltam da alma
Fazem piruetas no ar e inundam meu espaço de calma.
Quero problematizar a poética
Poetizar o meu problema
Reduzir os meus algarismos a alfabética extrema.

III

E quem quiser que entenda como loucura
O que se me mostra absoluta razão.
Não é a toa que toco em tua ferida
Quando seguro firme em tua mão.
Eu faço poesia com a pena que eu quiser
E se eu quiser cantar o vazio
O farei sem pestanejar.
Mas não pensei que escreveria um poema
À caminho de casa num ônibus abafado
Por tantas inspirações e aspirações
Que não vão se concretizar
Tudo bem, o que vale é a intenção de tentar.
(Calliope, 23/03/2010) 

22 de março de 2010

O Doce e o Azedo

Meu amor vai nú pela rua
Louco, desvairado
Sem vaidade que o cubra
Vai andando pela rua
Incompleto, cortado.
Esbanjando  metades.


Metades do que se foi
Que se passou
Transcrito foi em versos
Ou será que louco
Exibe o que não foi
Em ode singela, vaidade e restos?


Há que esconder essa nudez
Com as pétalas murchas
De rosas espectrais
Que, sombrias, o insultam
Em silêncios abissais?


Não. Ele resiste.


Que matéria plena,
Que tecido inconsútil
Esconderia as carnes etéreas
Do meu amor desnudo?


Seguindo pela rua nú
Ninguém o nota
Meu amor não se esconde
Tampouco se mostra.
Quem o viu não percebeu
Quem o sentiu não entendeu
Quando empalideceu ou quando ruborizou.
(Calliope, 20/03/2010)

10 de março de 2010

Rosa

Rosa composta de pétalas murchas
Das rosas que beijou 
Ou que beijar desejou.
Que fiz de mim?
Adorno grotesco de jardim.
(Calliope)

23 de fevereiro de 2010

O Infinito

O meio do infinito é breve
E nele me detenho
Com os olhos abertos
Com a alma aberta.
Enquanto passa o vento
Sobre os meus cabelos
Não penso.
É só o vento...
E apesar de emaranhar os meus cabelos
Fustigar meus olhos e até minha pele
Não vai arrancar as raízes
Que finquei neste lugar.
O meio do infinito é breve
E nele resumo minha história
Até aqui, até adiante, até o final.
(23/02/2010)

28 de janeiro de 2010

Poema Começa Onde Poeta Termina

Esperei o dia todo por um poema que não veio.
Insinuava-se, mostrava-se qual mulher lasciva
Mas não ousou derramar-se por completo
No conforto do papel manchado.
Era composto de poucas linhas, sem rosto
Sem capa que encobrisse o seu vazio.
Não tinha corpo, nem contornos.
Cuidei que era um poema morto.
Mais um filho torto, terrível, absurdo!
Era cego, burro e surdo
No entanto, compreendi o que me dizia.
(Calliope, 28/01/10)

27 de janeiro de 2010

Exacta

Alinho minhas desistências,
Minhas deficiências, minhas carências,
Uma após a outra.
Mas o Efeito Dominó
Não atua sobre elas.


(Calliope, 27/01/2010)
 
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