20 de outubro de 2009

Misantropia

Há sempre a possibilidade de tocar,
Levemente tocar, a sua ferida subcutânea recém-aberta.
Há sempre a possibilidade de tocar,
Mediocremente tocar, um instrumento no silêncio;
Escrever um livro sobre qualquer inutilidade necessária aos fúteis;
Atuar numa peça mal escrita e dirigida por você mesmo.
Há sempre a possibilidade de usar palavras ardilosas
E destilar um pouco de veneno
Apenas para testar a sua eficácia...
Há sempre a possibilidade de se fazer
Cientista, político e poeta.
Há sempre a possibilidade de criar um manual auto-instrutivo,
Auto-destrutivo e auto-desconstrutivo, para distrair ou construir
A sua idéia disforme sobre qualquer coisa...
Qualquer coisa automática:
Como esse tal “complexo de arma carregada”,
O meu instinto de defesa versus
O seu instinto de criança indefesa.
Há sempre a possibilidade de invadir a sua fronteira
E no seu território construir o meu castelo de areia
E de um deserto particular fazer “terra de ninguém”
Apenas para exercitar a misantropia de alguém.
(Calliope, 17/08/2009)

5 comentários:

Alisson da Hora disse...

eu tenho complexo de arma carregada (me lembrou do poema da Emily Dickinson - "minha vida - uma arma carregada")...

dos teus poemas acho que esse foi o melhor que li. O mais cortante, como bisturi na pele tensa, como um soco no estômago...

abração

Grigório Rocha disse...

Um poema eloqüente, de ritmo intenso, versos cortantes e tema certeiro. Calliope tem essa qualidade, de ir fundo, no âmago das questões, com a dureza necessária nas palavras.
Parabéns mais uma vez, sem dúvida, um dos seus melhores trabalhos.

Paulo Fernando disse...

Sem dúvida, um excelente trabalho! Merece ser

Paulo Fernando disse...

... publicado em diversas antologias.

Jú Almeida disse...

gosto do que vc escreve viu ....
simples e honestamente falando.
sucesso!!!!

 
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