28 de junho de 2007

Eu quero jogar um jogo de você

Você nunca sabe o que quer.
É guiado pelos seus desejos,
Pelo mesmo impulso
Que cria todas as ilusões.
Não é o melhor pra mim,
Não é o que realmente quero.
Preciso usar você,
Machucar você e te fazer sofrer.
Te fazer rir e chorar
E sentir, o amaríssimo gosto,
Do amor que acreditas ser doce.
É mister que veja o feio, naquilo que é belo
E o triste, no rosto que lhe faz sorrir.
A insônia que necessita dormir
E a verdade além da carne tátil,
Que um dia cessa de existir.
Eu quero jogar um jogo de você.
Quero que me ame e me odeie
Quero que me amaldiçoe e me venere.
Saiba que você nunca vai me possuir,
Enquanto eu jogar um jogo de você.

(Calliope, 15/09/2005)

24 de junho de 2007

Proposta

Te proponho, meu amor,
Que hoje, amanhã e até a morte,
Tentemos escapar do fogo.
Das mãos ávidas das paixões cegas,
Que tateiam no escuro, nosso rosto.
Tentemos escapar das flechas
Verbais, que línguas maldosas atiram.
Tentemos escapar do pão,
Que nos torna escravos
Do Carrasco que segura moedas sujas.
Escapemos da tortura luminosa
Das palavras verdadeiras.
Tentemos escapar à cova,
Enquanto a vida dá calor ao sangue,
Água ao corpo e ar aos pulmões.
Escapemos à morte linda,
À morte lenta e à morte plena.
Pois que morte seja apenas, morte.
Tentemos escapar do medo
Do homem, do lobisomem, do semi-homem.
Tentemos escapar à vaidade,
À falsidade, à insanidade.
Tentemos escapar do mundo louco,
Do mundo-muito e do muito pouco.
Tentemos, meu amor, transcender a carne,
A realidade, o tangível
E o inatingível;
Tentemos povoar as estrelas.
(Calliope, 29/03/06)

17 de junho de 2007

O Clown da Dor

A Dor é um desgraçadíssimo palhaço!
Com as vestes esmolambadas,
Com a maquilagem borrada,
Que na angustiada face guarda o traço

Do riso que outrora provocou
E que virou bagaço.
Felicidade que a terrível existência apagou,
Embotou e anulou o amor crasso

E tudo virou bagaço!
Até mesmo o desgraçado palhaço,
O soberano da Dor!

Fazes rir, infeliz criatura!
Mas o rosto, marcado pela tortura,
Me diz que o teu riso é expressão de Rancor!

7 de junho de 2007

Vestígios Atávicos da Dor (Às irmãs Boudoux)

É muito fácil falar de Dor,
Quando a sentimos profundamente,
Difícil é falar de alegria, assim sinceramente,
Se ela foge de nós, célere, como vapor.

A alegria é um mito! Não nos ensina
Nada tão intimamente importante,
Já que passa num instante
E sofrer é ainda minha sina.

Eu sinto a dor dos meus ancestrais
Sair das seculares covas sepulcrais
E bater no meu coração como um sino.

Nasci para cantar a Dor imensa
Cravada na minh’alma, sutil doença!
E vou morrer cantando este hino!
(Calliope, 15/12/05)

As Flores de Ontem Murcharam

Hoje, as flores de ontem murcharam!
E os sorrisos de ontem, perderam a graça.
E não há nada que mude, nada que faça
Tornarem as lágrimas que já secaram.

Secaram, mas continuam vivendo,
As mágoas negras e passadas,
De suas sepulturas arrancadas,
As flores funéreas do passado vão colhendo.

Os amores de ontem morreram
Todos. Sepultados no mar bravio
Das Emoções, no coração sombrio

Dos sentimentos que já passaram.
Murcharam as flores de ontem,
E as vidas de ontem, também murcharam.
(Calliope, 30/01/06)
 
BlogBlogs.Com.Br