29 de maio de 2007

Delírio

Ela tem olhos castanhos,
E a pele branca como um lírio.
Ela se intitula Delírio,
Pois tem sonhos estranhos.

É linda e sublime como um lírio
Me encantei por seus olhos castanhos,
Não me importo com seus sonhos estranhos
Se eu puder, apenas, olhar para Delírio.

Pudera eu tocar, tacitamente,
O anelar pueril dos seus cabelos
E no castanho dos seus olhos, me perder eternamente.

Sentir da sua pele, o lirial olor,
Ver brilhar seus olhos cheios de apelos
E com minha alma pagar o seu amor.
(Calliope, 14/12/05)

Tempo

Oh! Juventude efêmera, perecível!
Cantarei a tua música que fenece,
Te cobrirei de rosas que perecem,
Esmagadas pelo Tempo –vilão invencível-

Louvarei a beleza da seda
Da tua diáfana pele alva,
Amanhã, beijarei tua fronte calva,
E os trismos de tua boca leda.

Nos olhos velhos, vejo,
Como as passageiras águas do Tejo,
O fim que a tudo escurece.

Se hoje canto a juventude, o seu mistério,
Amanhã, serei a queda de um império
E um vegetal solitário que apodrece!
(Calliope, 30/06/06)

Soneto (Ao meu melhor amigo)

Olhei no espelho e ele não me sorriu.
Era apenas o meu reflexo,
A mancha alva do complexo,
Do meu ser, infinitamente, sutil.

A matéria inconsútil, dos tecidos
Celulares, da minha epiderme,
Não me salvará do verme,
Quando os meus dias forem abolidos.

Que me importa ser boneca, vidro ou pó,
Sabendo que no caixão estarei só,
Com o húmus, o verme e a podridão?

E se hoje, a máscara que cobre o meu rosto,
Não é bela e nem perfeita, ao seu gosto,
Saiba que tenho um grande amigo: a Solidão!
(Calliope, 01/07/06)

Sombrio Relicário

Meu coração, sombrio relicário
De velhas mágoas!
Rio de caudalosas águas,
Barco, vazio e solitário!

Caixa onde guardo minhas cinzas;
Relicário eterno da Dor;
Repositório único do Rancor...
Fecho a caixa das tragédias esquecidas.

É a caixa mais linda que já vi,
Nesta vida, desolada e passageira,
E foi nela que guardei a Dor primeira
E depois, todas as Dores que já sofri!

Ainda guardo no meu coração,
-Este sombrio relicário-
As mágoas do solitário
Destino, a eterna Maldição!
(Calliope, 17/04/06)

O Reduto do Tédio

No meu quarto,
-Onde as aranhas traçam
Finas teias indecifráveis
Que se vão amontoando com o tempo.-
Observo que a poeira incômoda,
Vai se acumulando.
Me provoca,
A noite que corre
Em busca do dia seguinte,
Que em breve,
Será mais um dia que passou.
Uma lembrança triste me envenena.
Sofro por fora e por dentro.
Tantos papéis riscados,
Fico com ódio quando lembro
Que tenho carne;
Quando olho para estas mãos impuras,
Frágeis e incapazes.
Brinco com demônios cor-de-rosa
Que vivem aqui.
Nos meus sonhos,
Peixes nadam no ar
E também são demônios.
Dias melhores virão?
Profeticamente, sei que não.
(Calliope, 29/03/06)

25 de maio de 2007

O Pão Parabólico

Noção perdida de árduo trabalho,
Intelecto construído na televisão.
Tu não passas de um fanfarrão!
De mais utilidade, goza um espantalho.

Trabalhas uma ova! Te nutres de subsídio!
E ainda inventa a “Parábola do Pão”.
Escancara a boca, cheia de sermão
Para humilhar os outros. Que coisa horrível!

Que moral tu tens para falar,
Porco adúltero, vulgar,
Se comes à custa do contribuinte?

Nunca pegou no cabo da enxada
E haverás de morrer com a boca inchada
A lhe faltar o pão parabólico do acinte!
(Calliope, 26/04/06)

Escravidão

Eu sou uma escrava!
Agora mesmo,
Solitária e entediada,
Me vejo presa
No quadrilátero da minha alcova.
Mas não é apenas o “Reduto do Tédio”
Que me aprisiona.
Não. Pior algoz
É o oxigênio. Não o vejo,
Mas quando o ar eu perco,
Os meus pulmões, açoitados,
Gritam! E as grades tilintam...
Sou escrava do oxigênio!
Só a Morte,
Assinará minha alforria.
Na tentativa tragicômica da fuga,
Entro num labirinto,
As paredes são tão iguais,
Os perigos, tão reais...
Flores cruéis e charcos
E a cada passo,
O labirinto me suga mais.
O Amor, aquela figura fluida,
-Que ao sorrir, o rosto se contorce
Num choro mudo-,
Me cumprimenta no Limiar
Do labirinto.
Mais uma vez afirmo:
Sou uma escrava!
E o Amor, como um sonho,
Uma ilusão,
Pega um espinho
E rasga o próprio pulso,
Mas num súbito impulso
De compaixão,
Afaga a ferida fresca.
De repente, vendo que eu o observava,
Com os olhos ávidos e a mente vazia,
O Amor, rindo-se, me dizia:
“Beija os meus pés, escrava!”
Haviam multidões naquele labirinto.
Criaturas tristes que se arrastavam,
Outras felizes que flutuavam,
E eu, perplexa, compunha o quadro.
Justamente nesta hora,
Um alarme ressoou no meu organismo:
Era a fome, um grande abismo
De Escravidão!
Além do quarto, do ar e do Amor,
Aquela fome interior,
Me tornava, também, escrava do Pão!
O meu próprio corpo era a prova,
Que havia em mim, escravizada,
Uma alma derrotada,
Abrindo, em vão, uma pequena cova,
Para enterrar-me em mais uma prisão!
(Calliope, 05/10/06)
 
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