24 de julho de 2007

Eu e Você

Inibida, desvio o olhar.
É só uma conversa tolerante.
Apenas uma troca de experiências.
Você sorri quando digo bobagens,
Não sei se me leva à sério.
Fica sério! Se cala. Mente?
Apenas peço que seja verdadeiro.
Busco o seu olhar, você percebe.
Disfarço. Tento ser enigmática,
Mas tudo que consigo é ser sincera.
Você diz que me ama... Eu, tola, acredito.
Porém, finjo que não acredito.
Mas na verdade,
Sabe que também te amo.
(Calliope, 22/03/2004)

22 de julho de 2007

Subliminar

Você me colore com cores negras
E cospe na minha cara,
As verdades que você supõe
Serem sinceras.
Ah Malícia! Queria poder
Ler os seus pensamentos...
Mas você me colore com cores diáfanas
E os seus pensamentos
Embotam os meus sentidos.
Você acredita que "A Verdade

Vos libertará"
Mas vejo que você se tornou um escravo dela
Preso nos espelhos das Realidades Esparsas...
Mas estes espelhos são translúcidos
E não nos revelam nada.
Somos todos prisioneiros,
Numa redoma de vidro.
Somos todos prisioneiros,
Da fragilidade e da carne.
Somos todos prisioneiros,
Das nossas crenças agonizantes.
Mas eu queria ler os seus pensamentos...
Enquanto você me colore com merencórias cores.
(Calliope, 04/09/05)

6 de julho de 2007

Mágoa

Tu, psicólogo do meu mundo,
Querias desvendar os meus mistérios,
Remexeu as minhas chagas, tão profundo,
Como os coveiros remexem covas no cemitério;
E encontrou esse ardor funéreo,
Na chama do meu medo queimaste a face...
E desistiu de desvendar os meus mistérios,
Foi deste modo vil, que me abandonaste!

28 de junho de 2007

Eu quero jogar um jogo de você

Você nunca sabe o que quer.
É guiado pelos seus desejos,
Pelo mesmo impulso
Que cria todas as ilusões.
Não é o melhor pra mim,
Não é o que realmente quero.
Preciso usar você,
Machucar você e te fazer sofrer.
Te fazer rir e chorar
E sentir, o amaríssimo gosto,
Do amor que acreditas ser doce.
É mister que veja o feio, naquilo que é belo
E o triste, no rosto que lhe faz sorrir.
A insônia que necessita dormir
E a verdade além da carne tátil,
Que um dia cessa de existir.
Eu quero jogar um jogo de você.
Quero que me ame e me odeie
Quero que me amaldiçoe e me venere.
Saiba que você nunca vai me possuir,
Enquanto eu jogar um jogo de você.

(Calliope, 15/09/2005)

24 de junho de 2007

Proposta

Te proponho, meu amor,
Que hoje, amanhã e até a morte,
Tentemos escapar do fogo.
Das mãos ávidas das paixões cegas,
Que tateiam no escuro, nosso rosto.
Tentemos escapar das flechas
Verbais, que línguas maldosas atiram.
Tentemos escapar do pão,
Que nos torna escravos
Do Carrasco que segura moedas sujas.
Escapemos da tortura luminosa
Das palavras verdadeiras.
Tentemos escapar à cova,
Enquanto a vida dá calor ao sangue,
Água ao corpo e ar aos pulmões.
Escapemos à morte linda,
À morte lenta e à morte plena.
Pois que morte seja apenas, morte.
Tentemos escapar do medo
Do homem, do lobisomem, do semi-homem.
Tentemos escapar à vaidade,
À falsidade, à insanidade.
Tentemos escapar do mundo louco,
Do mundo-muito e do muito pouco.
Tentemos, meu amor, transcender a carne,
A realidade, o tangível
E o inatingível;
Tentemos povoar as estrelas.
(Calliope, 29/03/06)

17 de junho de 2007

O Clown da Dor

A Dor é um desgraçadíssimo palhaço!
Com as vestes esmolambadas,
Com a maquilagem borrada,
Que na angustiada face guarda o traço

Do riso que outrora provocou
E que virou bagaço.
Felicidade que a terrível existência apagou,
Embotou e anulou o amor crasso

E tudo virou bagaço!
Até mesmo o desgraçado palhaço,
O soberano da Dor!

Fazes rir, infeliz criatura!
Mas o rosto, marcado pela tortura,
Me diz que o teu riso é expressão de Rancor!

7 de junho de 2007

Vestígios Atávicos da Dor (Às irmãs Boudoux)

É muito fácil falar de Dor,
Quando a sentimos profundamente,
Difícil é falar de alegria, assim sinceramente,
Se ela foge de nós, célere, como vapor.

A alegria é um mito! Não nos ensina
Nada tão intimamente importante,
Já que passa num instante
E sofrer é ainda minha sina.

Eu sinto a dor dos meus ancestrais
Sair das seculares covas sepulcrais
E bater no meu coração como um sino.

Nasci para cantar a Dor imensa
Cravada na minh’alma, sutil doença!
E vou morrer cantando este hino!
(Calliope, 15/12/05)

As Flores de Ontem Murcharam

Hoje, as flores de ontem murcharam!
E os sorrisos de ontem, perderam a graça.
E não há nada que mude, nada que faça
Tornarem as lágrimas que já secaram.

Secaram, mas continuam vivendo,
As mágoas negras e passadas,
De suas sepulturas arrancadas,
As flores funéreas do passado vão colhendo.

Os amores de ontem morreram
Todos. Sepultados no mar bravio
Das Emoções, no coração sombrio

Dos sentimentos que já passaram.
Murcharam as flores de ontem,
E as vidas de ontem, também murcharam.
(Calliope, 30/01/06)

29 de maio de 2007

Delírio

Ela tem olhos castanhos,
E a pele branca como um lírio.
Ela se intitula Delírio,
Pois tem sonhos estranhos.

É linda e sublime como um lírio
Me encantei por seus olhos castanhos,
Não me importo com seus sonhos estranhos
Se eu puder, apenas, olhar para Delírio.

Pudera eu tocar, tacitamente,
O anelar pueril dos seus cabelos
E no castanho dos seus olhos, me perder eternamente.

Sentir da sua pele, o lirial olor,
Ver brilhar seus olhos cheios de apelos
E com minha alma pagar o seu amor.
(Calliope, 14/12/05)

Tempo

Oh! Juventude efêmera, perecível!
Cantarei a tua música que fenece,
Te cobrirei de rosas que perecem,
Esmagadas pelo Tempo –vilão invencível-

Louvarei a beleza da seda
Da tua diáfana pele alva,
Amanhã, beijarei tua fronte calva,
E os trismos de tua boca leda.

Nos olhos velhos, vejo,
Como as passageiras águas do Tejo,
O fim que a tudo escurece.

Se hoje canto a juventude, o seu mistério,
Amanhã, serei a queda de um império
E um vegetal solitário que apodrece!
(Calliope, 30/06/06)

Soneto (Ao meu melhor amigo)

Olhei no espelho e ele não me sorriu.
Era apenas o meu reflexo,
A mancha alva do complexo,
Do meu ser, infinitamente, sutil.

A matéria inconsútil, dos tecidos
Celulares, da minha epiderme,
Não me salvará do verme,
Quando os meus dias forem abolidos.

Que me importa ser boneca, vidro ou pó,
Sabendo que no caixão estarei só,
Com o húmus, o verme e a podridão?

E se hoje, a máscara que cobre o meu rosto,
Não é bela e nem perfeita, ao seu gosto,
Saiba que tenho um grande amigo: a Solidão!
(Calliope, 01/07/06)

Sombrio Relicário

Meu coração, sombrio relicário
De velhas mágoas!
Rio de caudalosas águas,
Barco, vazio e solitário!

Caixa onde guardo minhas cinzas;
Relicário eterno da Dor;
Repositório único do Rancor...
Fecho a caixa das tragédias esquecidas.

É a caixa mais linda que já vi,
Nesta vida, desolada e passageira,
E foi nela que guardei a Dor primeira
E depois, todas as Dores que já sofri!

Ainda guardo no meu coração,
-Este sombrio relicário-
As mágoas do solitário
Destino, a eterna Maldição!
(Calliope, 17/04/06)

O Reduto do Tédio

No meu quarto,
-Onde as aranhas traçam
Finas teias indecifráveis
Que se vão amontoando com o tempo.-
Observo que a poeira incômoda,
Vai se acumulando.
Me provoca,
A noite que corre
Em busca do dia seguinte,
Que em breve,
Será mais um dia que passou.
Uma lembrança triste me envenena.
Sofro por fora e por dentro.
Tantos papéis riscados,
Fico com ódio quando lembro
Que tenho carne;
Quando olho para estas mãos impuras,
Frágeis e incapazes.
Brinco com demônios cor-de-rosa
Que vivem aqui.
Nos meus sonhos,
Peixes nadam no ar
E também são demônios.
Dias melhores virão?
Profeticamente, sei que não.
(Calliope, 29/03/06)

25 de maio de 2007

O Pão Parabólico

Noção perdida de árduo trabalho,
Intelecto construído na televisão.
Tu não passas de um fanfarrão!
De mais utilidade, goza um espantalho.

Trabalhas uma ova! Te nutres de subsídio!
E ainda inventa a “Parábola do Pão”.
Escancara a boca, cheia de sermão
Para humilhar os outros. Que coisa horrível!

Que moral tu tens para falar,
Porco adúltero, vulgar,
Se comes à custa do contribuinte?

Nunca pegou no cabo da enxada
E haverás de morrer com a boca inchada
A lhe faltar o pão parabólico do acinte!
(Calliope, 26/04/06)

Escravidão

Eu sou uma escrava!
Agora mesmo,
Solitária e entediada,
Me vejo presa
No quadrilátero da minha alcova.
Mas não é apenas o “Reduto do Tédio”
Que me aprisiona.
Não. Pior algoz
É o oxigênio. Não o vejo,
Mas quando o ar eu perco,
Os meus pulmões, açoitados,
Gritam! E as grades tilintam...
Sou escrava do oxigênio!
Só a Morte,
Assinará minha alforria.
Na tentativa tragicômica da fuga,
Entro num labirinto,
As paredes são tão iguais,
Os perigos, tão reais...
Flores cruéis e charcos
E a cada passo,
O labirinto me suga mais.
O Amor, aquela figura fluida,
-Que ao sorrir, o rosto se contorce
Num choro mudo-,
Me cumprimenta no Limiar
Do labirinto.
Mais uma vez afirmo:
Sou uma escrava!
E o Amor, como um sonho,
Uma ilusão,
Pega um espinho
E rasga o próprio pulso,
Mas num súbito impulso
De compaixão,
Afaga a ferida fresca.
De repente, vendo que eu o observava,
Com os olhos ávidos e a mente vazia,
O Amor, rindo-se, me dizia:
“Beija os meus pés, escrava!”
Haviam multidões naquele labirinto.
Criaturas tristes que se arrastavam,
Outras felizes que flutuavam,
E eu, perplexa, compunha o quadro.
Justamente nesta hora,
Um alarme ressoou no meu organismo:
Era a fome, um grande abismo
De Escravidão!
Além do quarto, do ar e do Amor,
Aquela fome interior,
Me tornava, também, escrava do Pão!
O meu próprio corpo era a prova,
Que havia em mim, escravizada,
Uma alma derrotada,
Abrindo, em vão, uma pequena cova,
Para enterrar-me em mais uma prisão!
(Calliope, 05/10/06)
 
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