23 de agosto de 2012

Os Vasos

As minhas flores tão velhas
Sem ternura
E sem mistério
Jazem num vaso
Lugubremente murchas.

É só um adorno vazio
Sobre a mesa
Que poderia ser ocupado
Por qualquer outra flor:
Mais rica, mais formosa,
Com mais valor.

As pétalas vão caindo solitárias
E vão sendo levadas
Não se sabe para onde

E os caules, pobres órfãos,
Vão secando à espera
De uma mão honesta
Que lhes dê conforto.

O vaso de minhas flores 
- Silentes, ignorantes -
Vive à sombra
De um vaso ausente
Feito inteiramente de cacos. 



16 de agosto de 2012

Fera Ensandecida

Eu sou um bicho
De presas afiadas
E de bote certeiro

Eu sou um bicho
De garras perigosas
Que se movem no escuro
Prontas para defesa

Eu sou um bicho
Que só ataca
Quando atacam primeiro

Porque para mim
Mais vale ser fera ensandecida
do que raposa escondida
Sob pele de cordeiro.

10 de julho de 2012

De Pó e Lembranças

Onde estão agora
os passos infantis
que inscreveram no calçamento
pequenas pegadas?
E a velha água que abrigava
crianças e girinos?
O tapete gramíneo
que outrora
se curvou
aos pés de meu pai?
A casa hipnótica
das lembranças
dos tempos idos?
É tudo pó e escombro e limo.
Meu pai, seus pés, as crianças, os girinos...

10 de maio de 2012

Borboletas no Caminho


Borboletas amarelas
Amanheceram meu caminho.
Foi num dia
Em que trilhei a Estrada Torta
Do destino
Que as vi em bando
Contrabandeando,
Das alturas,
A luz solar.
Tentei, sem tino, agarrá-las,
mas quando minha mão as alcançava,
elas se desmanchavam
como nuvens
No ar.

(Calliope)

21 de abril de 2012

O Afogado

Meu coração é o pedestal
De uma antiga estátua
Esculpida em sal,
Grãos de areia
E ondas do mar

(Calliope)

6 de fevereiro de 2012

Aviso


Escrevi e apaguei palavras
Acabei com a existência delas
O teclado é uma arma carregada
Empunhada
Virtualmente.
Elas mentem
Dizem que sentem e riem
Rimam da minha cara
Como se fosse possível
Rimar corpo com mente.
Ah palavras indecentes
Desmintam tudo que dizem
Direta ou indiretamente
E não façam de conta
Que não entendem o que digo
Porque o meu teclado
É uma arma carregada
Empunhada por uma destra cansada
E este é meu último aviso.

(Calliope)

13 de janeiro de 2012

25 de dezembro de 2011

Lua Rosa

Rosa de asas, Anjo da noite
É a Lua que embala
O céu azul cansado
E desvela a imensidão noturna.


A Lua se cobre de liriais,
Branquíssimas vestes.
Se não fosse a escuridão, 
Que a enobrece,
O que seria
Dessa lânguida fantasia?


Multifacetada Lua
De esplendor e heterogeneidade.
Às suas quatro fases,
Já vistas,
Descortina-se uma quinta:
Lua Rosa! Sutil vigor
E Pluri-singularidade.


A noite é um palco infinito
Em que sua voz se expande,
Se agiganta!
Sua beleza, sua grandeza, sua arte
Enchem o céu inteiro:
Astronômico tablado!


Reboa no universo
O eco de seus versos
"Ecos de uma louca", mística ópera,
E o desabrochar infindo
Da mais sublime e encantadora
Rosa


(Calliope, 24/12/11)

19 de novembro de 2011

Rugas

O envelhecimento
Aqui se instala.
Repousa na sala,
Nas coisas, nos espaços,
Nos diálogos, nas estantes,
Nos livros e nos vasos.

A velhice absurda do telhado
E o ranger insistente de seus ossos
Como chocalhos de telhas
Por sobre o madeirame armado.

A cidade enrugada e vencida
Se despedaça e derrama toda
Em lama.

Há em todos os espaços
Um cansaço: da existência,
Da doença e de todos os costumes.

Ruga na testa da rua
Verruga em cada estrada, avenida,
Há um frio de encolher os dedos
E até os ossos se recolhem
Dentro de si mesmos.

A nervura da cidade
Seus pulmões inundados
Seus músculos cansados
Revelam sua derradeira
Identidade.

O café envelheceu na xícara
Enquanto esperava ser tomado.
Envelhecemos todos,
Enquanto tomávamos
No caminho, o atalho errado.

(Calliope)

11 de novembro de 2011

Recorte


A poesia desceu do livro,
À livraria, deu de ombros
E colou-se no muro:

ARTE COMO CRIME
CRIME COMO ARTE*

*O autor não assinou a poesia e ela brilhou sozinha num muro qualquer dessa cidade.

19 de setembro de 2011

Pesadelos

Pesadelos: medos nus em pelo
Varanda apagada 
Lua cheia entre nuvens 
De cinzas de cigarros acesos.


Na madrugada adormecida
A Lua, o Cigarro, o Espelho
São três insones acesos
Murmurejando segredos
Para os pesadelos.


(Calliope)

12 de agosto de 2011

Inventário

Quando eu for
Sentir cheiro de flor
De terra e de jardim
Podem ficar com o que restar
De mim:

A raiz do meu dente
Se estiver cariado
Meu vestido velho
De todo feriado
Minha ferida aberta
(mal já curado)
Meu olho cego,
Por muitos livros, rodado
Meu cabelo enrolado
(se estiver escovado)
Meu batom vermelho
Pintado por meus lábios
Meu EU embolorado
A unha de meus dedos quebrados
E para quem possa interessar deixo
Uma coletânea de poemas
Inacabados.

7 de agosto de 2011

Espectro

Era um tal poeta de Espectro
Papel e pena à mão.
Por mais que rabiscasse, circunspecto
Seus versos se assemelhavam a batatinhas pelo chão.

(06/08/2011)

30 de julho de 2011

Mágoa (em uma estrofe)

A vida tecida
Com a teia da viúva
Ah! As lembranças
Amargam mais que o açúcar
Da infância perdida
Na varanda esquecida.

16 de maio de 2011

O Borrão

A ruga no espelho ria da minha cara
Não, eu não era uma piada mal contada
E o sarcasmo, por mais que tentasse,
Não se mascarava, ao contrário, se mostrava.

Era a tinta que me irritava
Era o pó, a cor, o tom
Tentar estar impecável
Era sempre o maior dos pecados

E o batom sempre destoava
Do meu pretenso mau humor.
A minha cara feia não assombrava
Era antes de nada, uma piada:

Uma piada pintada de rancor.
E de repente o vermelho borrava,
Irritava e cansava meu corpo
Meu olho borrava: lágrima.

Debilidades descaradas
Não se submetiam às ordens
Que a minha expressão ordenava:
Autoritária e arrogante, desmedida.

Abria-se assim uma ferida
Não na pele, mas na alma
A pele vai assim, cheia de remendos
Cheia de pintura e máscara.

A alma, não, meu caro.
A alma é chaga aberta, exposta
Mostra a cara danada de doença
E espanta sem a menor cerimônia.
(Calliope, 16/05/2011)

17 de abril de 2011

Riso de Criança

Aos meus sobrinhos Ícaro e Lunna


Ícaro com Lulu dá caruru!
De quem é esse nariz amassado?
De quem é esse cabelo cacheado?
- É de Pretinha, é de Lulu!


Na TV carrinho, bombom, coisas sem fim
Desenho animado, filme novo no cinema
Ícaro vivendo um dilema:
- Ô minha tia, o que você vai comprar pra mim?


O sofá é pula-pula, cavalinho, pista de dança
A vovó o tempo todo a reclamar:
- Eles vão esculhambar o sofá!
Deixa esculhambar! Isso também é infância!
(Calliope)

7 de março de 2011

Soneto ao Deus Chifrudo

Entidade de crenças tão antigas, oriunda
Atravessando séculos até a modernidade
Eis o Deus Chifrudo esbanjando masculinidade
Desvirginando a sagrada taça profunda.

A reverência a ti ofertada, oh Idolatria Suprema!,
Sofreu a mudança do passar das eras
Pois, se tudo muda, inclusive as quimeras,
Que dizer da antiga adoração extrema?

A Deusa de hoje é uma janela, para o mundo, aberta
Já livre da idealização de branquíssimos luares
Que proclama aos ventos a verdade que a liberta:

"Homem, o arquétipo de tua virilidade
Hoje reside num par de chifres seculares
E numa desmistificada e vencida superioridade."
(Calliope, 07/03/2011)


Soneto livremente inspirado em A DEUSA E A VERDADE do poeta Grigório Rocha.

2 de fevereiro de 2011

Ventre

Embalo um filho que não é meu
No colo da mãe que não sou:
É meu sonho prematuro do futuro
Do que não serei, do que já não sou.

O Nada e o Além

E foi por surpreenderem meus olhos com verdades pouco esclarecidas que aprendi a odiar alguns poemas.


Da Lírica que dorme no país do seu passado acordado
Vejo com olhos de rosas emurchecidas
Que é no raro que o raro se complementa
E o comum de comum se completa
Como a mosca que completa a boca aberta
Do vazio que de vazio se adensa.


É no medo que o medo se desgasta
O mesmo laço que une, desata
E o que outrora era um se despedaça
E cada um é cada um - migalhas
Com seu próprio desconsolo.


Nada pode unir em estátua
O Amor que se desagregou
Sem jeito para o que não tem jeito
Nem remédio para este doente do peito
Que não compreende a dor como último consolo.

3 de janeiro de 2011

Manto

O Eu dentro do Eu
Inquieto
Circunspecto
A Paz dentro da Guerra
A Água dentro da Terra
O centro do meu centro
Profundo.
Enraizado em mim
Este Eu que nunca alcanço.
A Morte permeando a Vida
A pele camarada da ferida
O infinito se debruçando
Na janela.
No horizonte
O sol se encerra,
A lua se mascara:
É um, não, são dois - suicidas
Dentro do mesmo mistério.
O Eu dentro do Eu
Se ergue, se entrega
Se debate, se debruça
O Eu é um prisma
O Eu é um enigma
Aprisionado em seu próprio arcano.
 
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